Enquanto proposta teórica, a análise do comportamento assume a compreensão do fenômeno comportamental humano a partir da interação entre o sujeito e o meio no qual está inserido (Skinner, 1953/1970). Trazendo para o contexto da clínica infantil, entende-se que os pais são os responsáveis por dispor a maior parte desse meio em que a criança é exposta, tornando-se figuras imprescindíveis para a constituição do repertório comportamental de tais (Caleiro e Silva, 2012). Dessa forma, segundo Pinheiro e Haase (2011), ao se reconhecer a importância da família na constituição e orientação dos filhos, instiga-se a promoção de programas que oriente os pais quanto ao desenvolvimento de estratégias e habilidades que contribuam para as dificuldades comportamentais infantis.

Para isso, os programas de treinamento parental (TP) seriam alternativas utilizadas na clínica comportamental infantil com essa proposta, na medida que objetiva promover a modificação de comportamento de crianças e adolescentes a partir da instrução de pais/ou responsáveis a manejarem medidas educativas e adaptativas (Caleiro e Silva, 2012). Dado isso, a realização de TP deve envolver o treino de identificação dos comportamentos problema, análise de sua função e articulação de estratégias preventivas e de manejo, bem como a priorização de uma comunicação funcional (Bagaiolo e Pacífico, 2018).

Assim, é necessário apresentar aos pais alguns princípios da Análise do comportamento. Para se discriminar a função do comportamento problema, a avaliação funcional pode ser a estratégia comportamental mais adequada. A partir dela, segundo Bagaiolo e Pacífico (2018), deve-se ensinar aos pais a observar e perceber algumas regularidades quanto aos acontecimentos que antecedem o comportamento problema, as alterações ambientais que acontecem após o comportamento ser emitido, além da descrição do que a criança faz quando está se comportando dessa forma, a formulação de hipóteses e como testá-las. Além disso, fazê-los compreender o modelo causal da seleção pelas consequências, no qual os comportamentos podem ser mantidos por algumas variáveis ambientais específicas.

Também, quanto às estratégias preventivas e de manejo, ainda segundo esses autores, as mais úteis para a aplicação realizada pelos pais e, portanto, para serem ensinadas em TP são: extinção, exercícios físicos, time out, redirecionamento, interrupção, reforçamento diferencial, reforçamento não contingente e utilização de uma comunicação funcional. Portanto, é necessário, durante a aplicação desse programa, o trabalho com habilidades parentais de comunicação, de autocuidado e de brincar, podendo acontecer no formato de role-playing, videomodelação, palestras, aulas expositivas, tanto em grupo quanto individualmente.

Diante disso, esse formato de contribuição para lidar com as dificuldades de comportamento de crianças exige um planejamento prévio que leva em consideração a queixa trazida pelos pais, estrutura familiar, habilidades sociais dos pais, assim como também a idade da criança (Pinheiro e Haase, 2011). A partir disso, garante-se que, por ser uma das maiores evidências empíricas no tratamento de problemas comportamenentais infantis, a TP traz como benefícios a modificação de comportamentos indesejáveis no contexto natural e a evitação da aprendizagem de novos comportamentos inadequados.

Por fim, estudos demonstram que o Treinamento Parental apresenta resultados positivos abrangentes e que englobam as áreas sociais e acadêmicas (Bochi, Friedrich e Pacheco, 2016). Dessa forma, o desenvolvimento de práticas que empoderem os pais têm se mostrado como um dos principais focos que possibilitam o sucesso em intervenções comportamentais infantis, portanto, sendo essenciais enquanto recurso difundido na clínica  infantil.

Referências:

SKINNER, B. F. Ciência e Comportamento Humano. Brasília: Ed. UnB/ FUNBEC, (1953), 1970.

BOCHI, A.; FRIEDRICH, D.; PACHECO, J. T. B. Revisão sistemática de estudos sobre programas de treinamento parental. Temas psicol.,  Ribeirão Preto ,  v. 24, n. 2, p. 549-563, jun.  2016 .

PINHEIRO, A.; HAASE, V, G. Treinamento de pais. In: BAPTISTA, M. N. TEODORO, M. L. M. (Ed.). Psicologia da família: teoria, avaliação e intervenções. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 234- 248.

CALEIRO, F. M.; SILVA, R. S. Técnicas de modificação do comportamento de crianças com treinamento parental: uma revisão de literatura. Encontro: revista de psicologia, São Paulo, v. 15, n. 23, p. 129-142, 2012.

BAGAIOLO, L.; PACÍFICO, C. R. Orientação e treino de pais. In: DUARTE, C. P.; SILVA, L. C.; VELLOSO, R. L. Estratégias da Análise do comportamento aplicada a pessoas com transtorno do espectro do autismo. São Paulo: Memnon, 2018, p. 356-378.