É sabido que a Análise do Comportamento possui um escopo teórico e prático suficientemente vasto para a aplicabilidade em diversos contextos, dentre eles, a psicoterapia infantil. Entende-se por psicoterapia enquanto os esforços intervencionais que objetivam diminuir a apresentação de comportamentos não adaptativos, na medida em que tenta promover comportamentos que possibilite a adaptação ao contexto no qual o cliente está inserido (Bunge, Scandar, Musich & Carrea, 2015).

Ao se tratar da Terapia Analítico Comportamental Infantil (TACI), além da definição já mencionada também a descrever, a mesma pode ser caracterizada como uma prática que tem por objetivo a modificação e ampliação do repertório comportamental de crianças trazidas ao atendimento (Conte & Regra, 2004).

Partindo-se para os aspectos estruturais do processo psicoterapêutico comportamental infantil, Vermes (2012) destaca as principais etapas, que vão desde a entrevista com os pais, sessões com a criança até encerramento do trabalho clínico. O contato com os pais é constante durante todo o processo, mas destaca-se aqui o primeiro, que acontece antes mesmo do contato com a criança. Essa entrevista inicial com os pais tem por objetivo o conhecimento da queixa principal, coleta de dados gerais sobre a criança e o estabelecimento do contrato, que estipula honorários, horários e modelo de atuação. O contato com professores ou outros significantes também é possível, na medida que a demanda trazida envolva questões pertinentes a esses.

A partir disso, ainda segundo esse autor, é possível traçar as sessões com a criança, que priorizem a construção de uma boa relação terapêutica, o processo avaliativo funcional, observações (em ambiente natural ou em clínica), o estabelecimento de objetivos terapêuticos e intervenções pertinentes ao caso. Essa estrutura de atendimento deve incorporar um processo de coleta e avaliação de dados que facilite a expressão de seus sentimentos e habilidades comportamentais, tendo em vista que a vocalização de suas queixas nem sempre abarcam os aspectos contingenciais envolvidos na descrição e entendimento do comportamento problema (Dell Prette, 2006). Para isso, a utilização de recursos lúdicos são alternativas válidas para o cumprimento dos objetivos terapêuticos estabelecidos por sessão. Por fim, quando os objetivos terapêuticos criados a partir da avaliação forem alcançados, o processo de encerramento pode se iniciar, acontecendo de maneira gradual.

Assim, esse formato de atuação deve promover a compreensão das variáveis envolvidas no comportamento problema, o ensino de repertórios alternativos àqueles considerados inadequados e a capacitação dos pais a analisar e lidar com os comportamentos da criança (Vermes, 2012). Para isso, o terapeuta também precisa estar atento à relação sujeito-contexto e a evolução temporal da queixa, para que assim os objetivos e intervenções sejam mais abrangentes e complexas e englobe a integralidade do sujeito (Conte & Regra, 2012).

Finalmente, pode-se perceber que a terapia comportamental infantil acaba por exigir do psicoterapeuta criatividade, tempo e diretividade na condução de avaliações e intervenções (Dell Prette, 2006). Logo, o trabalho desenvolvido deve ser pautado no planejamento, preparo e dedicação do profissional envolvido, bem como engajamento familiar e de outros significantes. O trabalho em equipe possibilita que o treino de habilidades adequadas em crianças sejam desenvolvidas de maneira mais bem sucedida,  promovendo a adaptação das mesmas à diferentes contextos e situações.

Referências:

CONTE, F.C.S.; REGRA, J.A.G. A psicoterapia comportamental infantil: novos aspectos. In: SILVARES, E.F.M. (Org.). Estudos de caso em psicologia clínica comportamental infantil (vol.1), Campinas: Papirus, 2004, pp. 79-136.

BUNGE, E.; SCANDAR, M.; MUSICH, F.; CARREA, G. Introdução. In: BUNGE, E.; SCANDAR, M.; MUSICH, F.; CARREA, G. (Org.). Sessões de psicoterapia com crianças e adolescentes: erros e acertos. Novo Hamburgo : Sinopsys, 2015, p. 15- 31.

VERMES, J. S. Clínica analítico-comportamental infantil: a estrutura. In: BORGES, N.B.; CASSAS, F. A. & Col. Clínica analítico-comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, 2012, p. 214- 222.

DEL PRETTE, G. Terapia Analítico-Comportamental Infantil: Relações entre o brincar e comportamentos da terapeuta e da criança. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica), Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.