Atualmente em grande ressalva no senso comum e no campo científico, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma realidade que acomete cerca de 1% da população mundial (Vieira & Baldin, 2018) e configura-se como um dos grandes desafios que permeia a psicoterapia clínica infantil. Diante disso, explorar essa temática é de suma importância, tendo em vista que contribui para a ampliação da rede de atendimento e o aperfeiçoamento da atuação de profissionais e outros significantes envolvidos desde o diagnóstico até intervenções desenvolvidas nesta população. (Borba & Barros, 2018).

Abordando conceitualizações atualizadas, o Transtorno do Espectro Autista é considerado um transtorno complexo e global do desenvolvimento, com origens mútiplas, sendo uma condição permanente que apresenta manifestações variadas tanto em grau quanto em forma, justificando a presença do termo “espectro” (Varella & Amaral, 2018). Apesar dessa variabilidade, de maneira geral, as crianças diagnosticadas com TEA, segundo o DSM-V (APA, 2014), apresentam comprometimento em dois principais domínios que são avaliados e considerados essenciais para a formalização do diagnóstico: (1) comunicação e interações sociais e (2) comportamentos repetitivos e interesses restritos.

Falando sobre os défcitis sociais e na comunicação, essas crianças apresentam dificuldade em estabelecer uma interação de maneira adequada, em dividir a atenção ou se atentar para emoções, não conseguem manter contato visual, entender linguagem não-verbal, assim como também podem apresentar atraso de fala (Borba & Barros, 2018). Já quanto aos comportamentos restritos e repetitivos, Varella e Amaral (2018) elencam alguns principais: movimentos repetitivos e esteriotipias, apego a rotinas e dificuldade em lidar com mudanças, realização de rituais, interesse em um objeto ou atividade em intensidade anormal, bem como a hiper ou hiporresponsividade a estímulos.

Esses sinais, em muitas crianças, começam a se apresentar desde o nascimento, tonando-se mais evidentes a partir dos 6 meses de idade, enquanto em outras se apresentam a partir de uma regressão, quando algumas habilidades já adquiridas se esvanecem, geralmente por volta dos 1 ou 2 anos de idade (Brito & Vasconcelos, 2009). De acordo com o DSM- V (APA, 2014), todas essas manifestações apresentam-se em três níveis de comprometimento, desde o 1, no qual o nível de comprometimento é menor, até o 3, onde o compromentimento é maior e mais severo.O diagnóstico é clínico, podendo ser realizado preferencialmente pelo neuropediatra ou psiquiatra infantil, a partir da observação comportamental e entrevista com os pais ou responsáveis (Vieira & Baldin, 2018).

Diante dessa realidade, observa-se a importância de realizar o diagnóstico precoce, bem como as intervenções interdisciplinares, pois são cruiciais para a concretização de um melhor prognóstico (Varella & Amaral, 2018). As intervenções em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) têm-se mostrado bastante eficazes para tratamento de crianças com TEA, principalmente se realizadas de forma precoce, na medida em que prioriza o treino de comportamentos adequados em detrimento à comportamentos-problema, além de trabalhar a sua generalização para outros ambientes.

Por fim, os desafios em lidar com o Transtorno do Espectro Autista são recorrentes e grandes. Por conta disso, é importante contar com a ajuda de uma equipe de profissionais especializados que tenham como objetivo priorizar a intervenção individualizada,  promovendo o treinamento de habilidades que irão contribuir para a adaptação social desses sujeitos. A partir dessas considerações, é importante ressaltar que, assim como aborda Borba e Barros (2018), o trabalho com TEA envolve uma aprendizagem contante e a capacidade de comemorar os pequenos progressos.

Referências:

VIEIRA, N. M.; BALDIN, S. R. Diagnóstico e intervenção de indivíduos com transtorno do espectro autista. In: ENCONTRO INTERNACIONAL DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES, 10., 2017, Sergipe. Anais... Sergipe, 2017.

BRITO, A. R.; VASCONCELOS, M. M. Conversando sobre autismo - reconhecimento precoce e possiblidades terapêuticas. In: CAMINHA, V. L. P. S.; HUGUENIN, J.; ASSIS, L. M.; ALVES, P. P. (Org.). Autismo: vivências e caminhos [livro eletrônico]/  São Paulo : Blucher, 2016, p. 23-33.

BORBA, M. M. C.; BARROS, R. S. Ele é autista: como posso ajudar na intervenção? Um guia para profissionais e pais com crianças sob intervenção analítico comportamental ao autismo. Cartilha da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC), 2018.

VARELLA, A. A. B.; AMARAL, R. N. Os sinais precoces do transtorno do espectro autista. In: SELLA, A. C.; RIBEIRO, D. M. (Org.).  Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. Curitiba: Appris, 2018, p. 38- 46.

AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais-DSM-V. Porto Alegre: Artmed, 2014.